Clube da Esquina
Clube da Esquina

A turma do Clube da Esquina
na 'Cantina do Lucas', 
no Edifício Maletta,
centro de Belo Horizonte

Por uma dessas boas coincidências do destino, Milton Nascimento foi, quando criança, vizinho de um outro menino que adorava música, Wagner Tiso, com quem jogou bolinha de gude e deu os primeiros passos na carreira musical. Milton também foi acolhido pela família dos irmãos Lô e Márcio Borges.
Esses personagens e mais outros freqüentavam, na capital mineira, uma esquina do bairro de Santa Tereza, onde se reuniam para tocar, compor, cantar, trocar experiências musicais, conversar sobre política e arte, etc. Uma de suas paixões eram os Beatles.
Toda essa turma se une em torno de um mesmo ideal e funda o Clube da Esquina (sim, usaram esse nome mesmo para batizar o movimento - anteriormente apenas uma reunião dessa turma, como descrito no parágrafo anterior -, por que não?), que começou como movimento cultural de Belo Horizonte e se espalhou pelo país, projetando-se, depois, também para o mundo. As outras figuras do Clube são Lô Borges, Beto Guedes (considerado por alguns o mineiro mais Clube da Esquina da MPB), Fernando Brant, Toninho Horta, Nivaldo Ornelas, Helvius Vilela e Márcio Borges.

Beto Guedes, um dos meus representantes favoritos do Clube, ao lado de Flávio Venturini.

O Clube da Esquina é um movimento musical tipicamente mineiro. Em outras palavras, é a música que representa o espírito das Minas Gerais. Enquanto que a Bahia nos presenteou, nos anos 1960, com o Tropicalismo, outro importante movimento, Minas Gerais, nos 1970, também nos surpreende com essa maravilhosa música. A música do Clube da Esquina é revolucionária, regionalista, bem elaborada e sofisticada. Na obra de Beto Guedes notam-se características rurais e na produção de Lô Borges há a influência do barroco mineiro.
Um grupo que merece ser citado, apesar de não ser mineiro e muito menos pertencer ao movimento aqui em questão, é a dupla de rock rural Sá (carioca) e Guarabyra (baiano), que já foi, antes da saída de Zé Rodrix (carioca), um trio: Sá, Rodrix e Guarabyra. O anteriormente trio e depois dupla, estabeleceu as bases para o rock rural, ecológico, que influenciaria as carreiras de gente como Beto Guedes e Lô Borges. O surgimento do rock rural foi um reflexo evidente da consciência ecológica no Brasil. Em termos ideológicos, o gênero pregava a busca de uma vida mais equilibrada e feliz. "A gente saiu na frente levantando uma bandeira que o pessoal tinha na cabeça, mas ainda não expressava: era o homem, o questionamento do progresso, a estrada, a natureza, a busca do equilíbrio", dizia Gutemberg Guarabyra. Veja que ele citou a natureza, a ecologia e a busca por uma vida mais equilibrada, temas presentes não apenas no rock rural, mas também no Clube da Esquina e no Rock Progressivo.
Caetano Veloso diz que, com o seu exílio e o de Gilberto Gil, o Tropicalismo perdeu vez e voz, uma vez que ambos eram os seus mentores, os seus cérebros, e que, com isso, a tropicália não teve chance nem tempo de se estruturar e se organizar de forma que pudesse constituir uma "escola" ou um "movimento" mais sólido, no sentido mais pleno da palavra, o que ocorreu com a Bossa Nova e com o Clube da Esquina. De qualquer maneira, os tropicalistas inovaram em sua maneira de fazer e compor música e de escrever e fazer poesia e/ou letras, e essas influências foram absorvidas por quem veio depois, de uma forma ou de outra. De acordo com fontes, a influência do Tropicalismo é explícita em músicos dos anos 90 (ou que surgiram nessa época), como Lenine, Chico César, Otto, Chico Science e Nação Zumbi, Zeca Baleiro e Carlinhos Brown. Os frutos do Tropicalismo teriam sido colhidos exatamente com o trabalho desses novos nomes.
Voltando ao Clube, Caetano também comenta que, ao se silenciar prematuramente o Tropicalismo, que até então se opunha às estruturas vigentes no Brasil, o Clube da Esquina é que passaria a protestar contra a situação do país na época, contra a ditadura.
Fora as harmonias vocais e a sofisticação na forma, características do Clube, outro fato relevante é a facilidade que esses músicos tinham em se reunir para tocarem juntos. Compunham juntos, um tocava no disco do outro, retribuíam a participação, e assim ia... Por tudo isso, ao mesmo tempo que era um movimento, o Clube da Esquina era também um grupo (ou grupão), uma vez que quase todas essas feras se apresentavam juntas (tocavam e compunham juntos).
Infelizmente eles não tocam mais juntos. Mesmo assim, os fãs do Clube da Esquina ainda cobram que voltem a se reunir.
O Clube da Esquina, desde que surgiu, também vem influenciando muita gente. Guilherme Arantes declarou que já compôs muito utilizando as mesmas harmonias usadas por Lô Borges e Beto Guedes.
Visite o site Clube da Esquina - http://victorian.fortunecity.com/conway/808/



A Relação entre o Clube da Esquina e o Rock Progressivo

Podemos dizer que o Clube de Esquina tem contato com o Rock Progressivo. Alguns de seus representantes, como Lô Borges, Márcio Borges, Beto Guedes e até Milton Nascimento são fãs do rock mais elaborado. Tanto o Clube da Esquina quanto o Rock Progressivo são movimentos revolucionários e inovadores.
Beto Guedes curte e conhece muito bem o Progressivo. Seu filho Gabriel tinha uma banda especializada em Genesis e Yes.
Quanto a Milton Nascimento, já fez shows ao lado de Jon Anderson, a voz do Yes. Seu disco Angelus contou com a participação de Jon Anderson, Peter Gabriel (ex-vocalista do Genesis), Pat Metheny, Túlio Mourão (outro mineiro, além de ex-integrante dos Mutantes) e Herbie Hancock. Já Milton Nascimento participou do disco Deseo, de Jon Anderson. Milton também tocou com Wayne Shorter, que foi integrante da banda de jazz-rock de Miles Davis, nos anos 70. Usa elementos world em alguns de seus discos, como foi o caso de Txai. De vez em quando recebe um Grammy na categoria World Music. Caetano diz que Milton canta alto de uma maneira que passa a impressão de querer transpor as montanhas das Minas Gerais.
O Som Imaginário, antiga banda de Wagner Tiso (outro integrante do Clube da Esquina) e que, em seus primeiros anos, acompanhou Milton Nascimento, misturava psicodelia, MPB, Clube da Esquina, Rock Progressivo e jazz. Também passaram pelo conjunto Nivaldo Ornelas, Toninho Horta, Tavito, Naná Vasconcelos, Danilo Caymmi, Robertinho Silva, Laudir de Oliveira, Frederiko, Zé Rodrix (este, após deixar o Som Imaginário, uniu-se a Sá e Guarabira, criando, com eles, o histórico trio de rock rural), entre outros. A precisão instrumental era a maior força do grupo, que se mostrou inventivo desde o início, já incomodando ouvidos comportados. A música era impecável e os arranjos, criativos. Discos do Som Imaginário: Som Imaginário, Som Imaginário (chamado por alguns também de A Nova Estrela) e A Matança do Porco.

O Som Imaginário, que era liderado por Wagner Tiso (acima, à direita).

Flávio Venturini, outro mineiro e integrante do Clube da Esquina, participou d'O Terço -em sua melhor fase, a dos discos Criaturas da Noite e Casa Encantada-, importante banda progressiva brasileira dos anos 70. Venturini levou para o grupo elementos do movimento mineiro. Após sair d'O Terço, Flávio Venturini fundou, junto com Sérgio Magrão (outro ex-integrante daquele grupo progressivo), o 14 Bis. O 14 Bis mistura em sua música Clube da Esquina, Rock Progressivo e música clássica. Depois, deixou o 14 Bis para seguir carreira solo. Flávio Venturini ajudou nos coros do LP de estréia do Sagrado Coração da Terra.

Flávio Venturini, ao lado de Beto Guedes, um dos meus representantes favoritos do Clube.

O violinista Marcus Viana, também mineiro, ex-Saecula Saeculorum (nos anos 70) e atualmente líder do Sagrado Coração da Terra, ambas bandas de Rock Progressivo, esteve presente em trabalhos de estúdio e/ou como componente de bandas de gente como Milton Nascimento ("Caçador de Mim", "Anima"), Flávio Venturini ("Andarilho"), Fernando Brant ("25 Anos de Travessia"), Beto Guedes e Lô Borges, só para citar os mineiros do Clube. Pode-se dizer que sua antiga banda Saecula Saeculorum fazia uma espécie de versão progressiva do Clube da Esquina, ingrediente este que também está presente na música do Sagrado Coração da Terra. Segundo Marcelo Dolabela, em seu livro ABZ do Rock Brasileiro, o Saecula se apresentou na primeira versão do festival Camping Pop. Marcus Viana participou do álbum Nascente (faixa Jardim das Delícias) de Flávio Venturini.

O grupo Sagrado Coração da Terra, 
liderado por Marcus Viana (ao centro).

O Tellah, banda progressiva de Brasília, foi influenciado pelo Clube da Esquina e isso está comprovado em seu único disco, Continente Perdido.
Há ainda o grupo mineiro Uakti, que utiliza instrumentos de fabricação própria, realiza um trabalho bastante alternativo e é rotulado como New Age/World Music. O Uakti ganhou a admiração do compositor minimalista americano Philip Glass, que inclusive já compôs exclusivamente para o grupo. Nota: o Uakti grava por um selo que é dirigido por Glass.



    Texto escrito e organizado por Ériston Silva Melo
    Fontes:
  • artigo "Saudade dos Anos 70", de autoria de Paulo Pestana, publicado no Correio Braziliense em 1997, sobre o lançamento da série Portfólio, pela EMI
  • Pop Rock, A História, vol.4, da MTV, publicado pela revista Caras
  • entrevista com o grupo progressivo mineiro Cálix, na 10ª edição de Metamúsica, segundo semestre do ano 2000
  • artigo "Milton Solta a Voz e Canta a Vida", revista Manchete, nº2356, 31 de maio de 1997
  • artigo "Milton Nascimento na Estrada Blue", revista do CD Compact Disc, ano 1, nº10, janeiro de 1992
  • matéria especial "Sagrado Coração da Terra", sobre o Sagrado, Marcus Viana e o Saeculae Saeculorum, em Metamúsica nº4
  • Metamúsica nº6, pág.44
  • O Movimento Progressivo Mineiro, de autoria de Cláudio Fonzi


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